6 de maio de 2012


sol rompendo nevoeiro
paisagem que conheço

sueño



Juliana Meira

9 de dezembro de 2011


A VIDA ABSTRATA
(Gilberto Wallace)

Tento traçar o meu destino com uma régua,
mas a vida não me dá nenhuma trégua,
comporta-se como uma louca num triste enredo.
Eu a escondo, tal um segredo.
Ziguezagueante sorte que se arrasta por anos perdidos
numa réstea de névoa.
O rio das recordações deságua tanta datas,
nascimentos, aniversários, casamentos,
alguém se mata,
umas feitas de alegria, outras de nostalgia.
A vida, tão real, me parece abstrata.


Esse poema está no livro "Cenas de Uma Vida", 2011. A imagem é "Soft Watch at the Moment of First Explosion", de Salvador Dali, 1954.

1 de agosto de 2011


pra escrever poesia
não é necessário saber
de árvores e de pássaros

além da solidez do caule
e da sutileza do voo

tampouco saber do mar
que dele só quem sabe são os peixes
e as embarcações que se foram

pra escrever poesia
não é necessário ar ou água

o necessário é que se saiba
que a poesia já está escrita
em tudo o quanto haja


Juliana Meira
A foto fiz na praia do Cardoso, em Santa Catarina.

3 de junho de 2011


te
atro vazio
cheio de ar
te


Juliana Meira, no "poema dilema", 2009.

29 de abril de 2011


Buraco Negro
(José Antônio Silva)


Um buraco na infância
quintal da minha memória
que eu não lembro
e não esqueço.

Um buraco fundo e negro
que procurei tapar
com terra
pedregulho caco de telha
e mais outra terra por cima.


Um poço bem estreito
que acho não tinha fim
jogava tijolo
brita com cuspe
planta de vaso quebrado
aureola de santo
areia da praia
mais pedra
e sempre faltava um tanto.


Socava a tralha com o pé
puxava terra
no caminhão
joguei um grilo
galho quebrado
minhocas
e dê-lhe pedra e mais pedra
e o bruto não fechava.

No meio dos vultos
da noite
por vezes eu me encontrava
no pátio enluarado
ao lado do cachorrinho
ao pé do buraco
ajoelhado.


Até um brinquedo joguei
um pião com pouco uso
o revólver do meu pai
um soco no meu irmão
um bolo da minha mãe
mas o vácuo não cessava.


Meia volta
volta e meia
me vem o buraco à mente
- e lá vou eu pro buraco
de volta ao inclemente.


Nuns dias até parecia
que havia diminuído
agora faltava pouco!
porém
olhando da borda
era tudo aquele pouco.


Ali já lancei folha verde
caderno velho
pedras de rim
cabelo branco
sonhos novos
até que entendi enfim:
aquele maldito só fecha
após enterrar a mim.


Na imagem, José Antônio Silva, por Edgar Vasques.

20 de março de 2011


ouço o verso
como quem dá ouvidos
a um doido varrido

ouço o verso cínico
em idioma que inda não aprendi

ouço e ouso traduzir
enquanto ele ri e crê
dilúvio de versos

donos de si
doidos pra valer


Juliana Meira
A imagem é de Hélder Paz Monteiro.

17 de janeiro de 2011


x-coração
na lancheria do parque

pedi que viesse com o teu
pra viagem


Juliana Meira
A imagem é "Hot Pursuit", obra de Paul Klee datada de 1939.

19 de outubro de 2010

pátio da casa inabitada
poço vazio
esquecido olho d'água

ao relento ventania lhe empresta fala
coberto pelo musgo visguento
eco por dentro
deserto

quem chega perto logo se assombra
na vastidão escura é a voz do poço
que sussurra




Juliana Meira
Fotografia de Filomena Ponte Silva

2 de setembro de 2010


a voz do morro
(Ronald Augusto)


rasgacéu e mausoléu de nuvens
lá vai o morro: visto que parece meio
sem jeito mas paira quando nada
um passo perene e ainda outro
sobre a cerviz viridente quase
escura dele quando toda essa brancura
em desmesura escarnece
demora-se romeira um debruar-se
opressivo de bruços

em fila gigantas velhuscas
monjas lontanas nesta variedade
de formatura solar
mancheias de velofinos grisalhos
em carícias contra o verde crestado
a cabeleira cabocla desfeita
sobre a testa do morro que se
acrioula achando a coisa toda
sem serventia e nem unzinho
cachorro latia e vaca nenhuma
mu




Esse poema está na segunda edição do livro "No Assoalho Duro", Editora Éblis, 2010. Na imagem, retrato de Ronald Augusto, por Rosa Marques.

1 de junho de 2010


desejo o poema
que lembre a cena
na sessão das dez e quarenta

desejo o poema
reprise do nosso beijo
de cinema


Juliana Meira
A imagem é do filme "Breakfast at Tiffany's" (1961) com Audrey Hepburn e George Peppard.

7 de abril de 2010


cintilam aos montes
a nuca dói de tanto olhar
parece que nunca
nunca mesmo
vão se apagar as estrelas

com a ponta dos dedos sondo uma
mais uma
por segundos as ofusco
sob o rubro cintilante
das unhas


Juliana Meira
"Starry Night Over the Rhone", Vincent van Gogh, 1888.

1 de março de 2010


COM OS OUTROS
(Paulo Hecker Filho)

No que ando pela rua
evidente é a humanidade
e em seguida eu faço parte
e nem me procuro mais.


"Nem tudo é poesia", Editora Alcance, 2001.

6 de fevereiro de 2010


a colônia de cupins trabalha
em minha mesa de centro sua casa


rente às notícias passadas
passeiam traças

e nas tomadas a muda sintonia
das formigas


enquanto o porta-retrato empoeirado
transmuda ácaros em teu descaro
na antiga fotografia



Juliana Meira
Esse poema está transcrito em linguagem Braille, onde faz parte de "Poema em Foco". A imagem é minha "grafia", foto da poeta e artista plástica Sandra Santos, organizadora da exposição que reúne os poetas Alexandre Brito, Alice Ruiz, Cairo Trindade, Cláudia Gonçalves, Dennis Radüns, Fabio Brüggmann, Glauco Mattoso, Gilberto Wallace, Jaime Medeiros Jr., Jiddu Saldanha, Juliana Meira, Liana Marques, Lau Siqueira, Mara Faturi, Mario Pirata, Nicolas Behr, Renato Mattos, Ricardo Portugal, Ricardo Silvestrin, Ronald Augusto, Roseane Morais, Sandra Santos, Sidnei Schneider, Telma Scherer e Tulio H. Pereira.

20 de janeiro de 2010


eu passo
tu também
nós no mesmo passo

passeamos meu bem


Juliana Meira
A imagem é "La promenade", obra de Marc Chagall datada de 1917-18.

9 de janeiro de 2010

pipa

pandorga papagaio

cedo podaram tuas asas

num voo acanhado

saltos rasos te

repartem

céu e solo

naco

de

.

l

i

.

b

e

r

.

d

......a

.

...........d

.................e

......................

..........................

................................




Juliana Meira

4 de dezembro de 2009


pé-de-laranjeira
na ponta do galho
lua cheia



Juliana Meira
A imagem é "Full Moon", obra de Paul Klee datada de 1919.

16 de novembro de 2009


chá às cinco.
passa das seis e meia...

ela toma chá de sumiço.
ele, de cadeira.


Juliana Meira
A fotografia é de Renato Missé.

5 de novembro de 2009


veios de silêncio irriquieto
antenam-se sobre os campos
do que fora indeterminado
furores de saudadesejo
aprisionam-se na promessa
de languidez incontida
e reconversa em tempo
água que não se sente
e com tudo
passa



Jaime Medeiros Jr. em "Na Ante-Sala", Editora Porto Poesia e Território das Artes. A imagem é de dentro do livro.

4 de outubro de 2009


cachorro de rua
na falta do dono
abana o rabo pra lua




Juliana Meira
A imagem é xilogravura de Renato de Mattos Motta trabalhada para o poema. Grata Renato!

18 de setembro de 2009


das minhas perspectivas
quantas eram planos quantas eram planas
será que dobraram a esquina?

caminhei tanto que fiz calo
há quem olhe atravessado

também atravesso
não paro




Juliana Meira
A imagem é "Blue Nude with Hair in the Wind", obra de Henri Matisse datada de 1952.

11 de setembro de 2009


separados da cadela
cachorrinhos juntam-se
à tigela




Juliana Meira
A imagem é "Still life with three puppies", obra de Paul Gauguin datada de 1888.

2 de setembro de 2009


o sapo coaxa.
bonito?
só a sapa
acha.


Juliana Meira
A imagem é "O Lago", obra de Tarsila do Amaral datada de 1928.

9 de agosto de 2009


ENTRE MORTOS DEPOIS FERIDOS
(Frank Jorge)

perdi a chave da correspondência;
e fiquei livre de um monte de contas e cortaram minha
--------------------------------------------------------------[luz

perdi a eloquência; e fiquei livre das concordâncias;
mesmo assim cortaram meu barato

perdi a chave da paciência; e libertei tantos palavrões;
e cortaram minha língua

perdi a ciência; e ganhei a arte;
mesmo assim precisei de um Tylenol 750

tem tanta traça na minha casa
que eu ri de Kafka supondo Gregor uma barata

tem tanto sol na minha área
que eu vi o Figueroa cotovelando Tarciso

tem tanta sorte estar vivo
que dizer que és importante é um desperdício

tem tanta gente na merda
que o moscaredo tá confuso e deprimido

tem tanto molho nesse chesburguer
que a maionese ficou toda em teu sorriso

tem tanta frase desnecessária
que escrevi mais esta só pro meu ouvido


Esse poema de Frank Jorge está no livro "Crocâncias Inéditas", Editora Sagra Luzzatto. A imagem é da capa do livro.

11 de julho de 2009


As folhas mortas, caídas, tortas,
foram um dia fortes, lisas, vivas,
------------hoje, esperam no chão
um cão que lhes mije em cima.



Marco Celso Viola em "Viver a paixão de cada passo", Editora Alegoria. A ilustração é de Carlos D. e faz parte do livro.

17 de junho de 2009


o sol entrou
pela fresta da cortina

súbito saiu
sem dizer onde ia


Juliana Meira
A imagem é "Karneval im Schnee", obra de Paul Klee datada de 1923.

14 de maio de 2009


Cofre
(Nei Duclós)

Amor não se manifesta
É cofre em remota estrela

Amor não diz a que veio
É chá de imprestável erva

Amor se casa em segredo
E parte sem que amanheça

Tem armadilhas de caça
Em mil quartos de despejo

Não celebra nem reitera
É quebra de juramento

Manda cartas da cadeia
Sai pela porta da frente

Amor, quem pode com ele
De carona no poema?

Amor, palavra que esconde
Os arranhões da refrega

Amor, que jamais responde
Quando, perdido, se entrega


A imagem é "The Kiss", obra de Edvard Munch datada de 1898.

5 de abril de 2009


se tudo é vão
é outra a natureza em que
res
..valo

pés no chão
pés no barro



Juliana Meira
A imagem é "The poetess", obra de Joan Miró datada de 1940.

29 de março de 2009


releio versos
amarelecidos

e por ócio ou ofício
poupo as aquarelas

cadavéricas
no livro

observo a arte
através do vidro

o sol loucamente belo

rachando a tarde
amarelo-vivo


Juliana Meira
A imagem é
"Sol Poente", obra de Tarsila do Amaral, datada de 1929.

17 de março de 2009

tempoema e eu estamos felizes da vida, pois recebemos pela coleção Palavra Viva nossa primeira publicação em livro! A primeira série da coleção conta com livros dos poetas Marco Celso Viola, Mario Pirata, Mara Faturi e Renato de Mattos Motta, com trabalhos de Wilson Cavalcanti, Rodrigo Pecci, Paulo Chimendes. A arte da capa do "poema dilema" é de Marcius Andrade. Saravá!

14 de março de 2009


Mínimos Cantos
(Apparício Silva Rillo)

II

Ao trabalho da abelha me concentro.
Mínimas asas,
vôo de flecha,
pólen.
Operária no azul,
extremo e centro.
Espada no ferrão,
doce por dentro.

IV

Solam guitarras no canto das cigarras.
Ave e não-ave,
estridula na tarde.
Veraneira cantata monocórdia
ao sol que as ilumina e nos arde.

Onde buscá-la?
Mas por que buscá-la?
se o seu canto a desenha no silêncio
e se traduz por ela quando fala?


Esses "Mínimos Cantos" estão no livro "30 Anos de poesia".

11 de fevereiro de 2009


a noite sibila
velando o
escuro sono das gentes
até que silencia
simplesmente

em sonho lhe escancaramos
a brancura dos dentes




Juliana Meira
A imagem é "Noite estrelada", obra de Van Gogh datada de 1889.

29 de janeiro de 2009


TANTA COISA
(Sidnei Schneider)


um índio de cabelos ônix
rabo-de-cavalo ao cóccix
sopra queñas em cascata
hey jude inca-trocaico

o som escala e encapela
caixas-dágua furacéus,
e pela borda da rua-rio
um táxi vermelho ri:

que faz um táxi vermelho
bem aí? o índio, o táxi,
quem sopra? estou vivo,
longamente vivo, e aqui.



Sidnei Schneider é poeta, tradutor, contista e bacharelando em Letras/Inglês pela UFRGS. Autor de "Plano de Navegação" e "Quichiligangues" editados pela Dahmer em 1999 e 2008, respectivamente. Tradutor de Versos Singelos/José Martí (SBS 1997). Participa do volume Poesia Sempre n. 14 (Biblioteca Nacional MinC, 2001), da Antologia do Sul, Poetas Contemporâneos do RS (Assembléia Legislativa, 2001) e de outras nove publicações resultantes de concursos de conto e poesia. Primeiro lugar no concurso de contos Caio Fernando Abreu (UFRGS, 2003) e primeiro lugar em poesia no concurso Talentos (UFSM, 1995), de um total de treze premiações. Mantém o blog "Umbigo do Lago" - www.umbigodolago.blogspot.com

2 de janeiro de 2009

fenece a tarde cinza
como o sopro da chaminé
em frente a casa
o cedro envelhece
.
enquanto faço versos
em minhas mãos dançam rugas
que ao contorno da escrita
obedecem aduncas
.
contemplo o balé
que tantas tardes
se encarregaram de compor
à pele em flor
.
no entanto faço versos
como os galhos encanecidos
das árvores que serenamente
seguem o vento

.

Juliana Meira
Fotografia de João Martins

1 de dezembro de 2008


na parede da sacada
a lagartixa parece borracha
de pele fininha gelada
eis sua tática:
feito fita durex
de ponta-cabeça estática
ela não tem medo
espicha espicha
faz gracejo
quer saber como?

é segredo


Juliana Meira
Imagem de Fábio Castejon

6 de novembro de 2008


deixo o reflexo
no espelho
o rosto o gosto o cheiro
avesso do que sou e vejo
fico de fora
.....sou dentro
ora


Juliana Meira
Imagem de Jocope

25 de outubro de 2008

poça d' água
um sapato. o outro
ensopados


Juliana Meira
Imagem de Alexander Demianchuk

22 de julho de 2008


---------------------------------------------Adélia Prado

Sedução

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia para eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.


Grande Desejo

Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o
----------------------------------------------[cachorro

e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cântigos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele,vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
pra chorar, chorar e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.


Esses poemas de Adélia Prado estão no livro "Bagagem".

3 de julho de 2008

o florista
diziam as más línguas
era uma flor

entre rosas petúnias
margaridas
sempre tinha quem achasse
no trejeito do trabalhador
um atrevimento

todo o dia a mesma sina
nem bem amanhecia
a banca destruída
ô vida sem cor

já com o sol a pino
remendava o ganha pão
à sombra emprestada do edifício
tom sobre tom
cravos floridos

o florista
de fato era um cacto
só espinhos



Juliana Meira
A imagem é "Manacá", obra de Tarsila do Amaral.
O poema também pode ser lido em: www.vidaliteraria.zip.net

2 de julho de 2008


----o bicho alfabeto
tem vinte e três patas
----ou quase

----por onde ele passa
nascem palavras
----e frases

----com frases
se fazem asas
----palavras
o vento leve

----o bicho alfabeto
passa
----fica o que não se escreve


Paulo Leminski, em "la vie em close", editora Brasiliense.

22 de junho de 2008

dia frio
nevoeiro. o rio
também é nuvem


Juliana Meira
Foz d' Orelho, Portugal - fotografia de João Carlo.

12 de junho de 2008

na ampla tela azul
nenhuma brisa
nuvens
personagens da moldura
entorpecidas texturas uma a uma
como se lançadas a tinta
pousam
não se escuta vento
nem levanta poeira
terra chão batido
vermelho
a sua maneira o tempo
exausto de tanto ofício
dorme sob o céu de
domingo


Juliana Meira
Ruínas de São Miguel das Missões, fotografia de Wilson Icasatti Ramires.

30 de maio de 2008

inverno
invejo o rio. só ele
não sente frio
-
-
Juliana Meira
Imagem de António Lança

28 de maio de 2008

toca a janela
chuva miúda sem trégua

a cena cinza escorre
o dia é liquefeito

na estante dormem
livros de direito


Juliana Meira
Imagem de Catarina Cruz

Sonetilho de verão
(Paulo Henriques Britto)


Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
A idéia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.

O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.



Esse poema de Paulo Henriques Britto está no livro "Trovar Claro", Editora Companhia das Letras. A imagem é de Jorge Palha.

21 de maio de 2008

o canto
da sala
cujo pó guarnece
vê o sol que desce
da vidraça entreaberta
desabitado ouve
a passarada o jornaleiro
o cachorro a piazada
exposto à poeira
da vida que é lá fora
na calçada
pena que o vento lhe condena
à luz míngua sorrateira
vexado ouve a gente toda
barulhenta
o canto
cala


Juliana Meira
Fotografia de Ana Franco

16 de maio de 2008


----------------------------------------Vinicius de Moraes

Estudo
(Vinicius de Moraes)

Meu sonho (o mais caro)
Seria, sem tema
Fazer um poema
Como um dia claro.

E vê-lo, fantástico
No papel pautado
Ser parte e teclado
Poético e plástico.

Com rima ou sem rima
Livre ou metrificado
- Contanto que exprima
O impropositado.

E que (o impossível
Talvez desejado)
Não fosse passível
De ser declamado.

Mas que o sonho fique
Na paz sine die
Ça c'est la musique
Avant la poésie.


Esse poema está em "Poesias coligidas" - poesia completa e prosa.

14 de maio de 2008


O amor é uma droga pesada
(Maria Rita Kehl)

Como se eu fosse velha muito velha
pela milésima vez correndo essas estradas
aqui barranco de terra vermelha ali capim-gordura
incendiado ao sol
a casa pobre bucólica só de longe
o gado magro o arame farpado o vira-lata caipira
e eu mulher muito velha
voltando mais uma vez da viagem sem esferas
com minha inútil bagagem de antigos registros
sentimentais.
brasileiros.

o amor é uma droga pesada
perde-se a exata dimensão da vida e
o retorno é lento, cheio de falsas visões
cold turkey
me quero de volta e que esses matos voltem a fazer
sentido
sinto falta do mundo sintetizado em sua ordem nos
meus
pensamentos
não esse oco reverberando
mandalas nos ossos do crânio
não a dissolução de todas as certezas
o mundo apenas a sua representação
me contendo me dizendo
a que pertenço afinal
o amor é uma droga pesada
e eu uma velhíssima mulher
gozando pela milésima vez a viagem infernal.


Maria Rita Kehl é psicanalista, poeta, ensaísta. Escreveu dentre outros, "Imprevisão do Tempo" (1979), "O Amor é uma Droga Pesada" (1983), "Processos Primários" (1996). Seu trabalho pode ser acompanhado em: www.mariaritakehl.psc.br/ Ilustra os versos "O beijo", pintura de Gustav Klimt.

12 de maio de 2008


------------ "Contes", 1986 - poema objeto de Joan Brossa.

11 de maio de 2008

a ------------- forma
pela ----------forma
não se con --forma
trans -------- forma


Juliana Meira
Imagem de António Manuel Pinto da Silva

9 de maio de 2008

UMA ESTÁTUA NO SILÊNCIO
(Pablo Neruda)


Tanto ocorre no vozerio,
tantos sinos foram escutados
quando amavam ou descobriam
ou quando se condecoravam
que desconfiei da algazarra
e vim para viver a pé
nesta zona de silêncio.

Quando despenca uma ameixa,
quando um onda desmaia,
quando rondam meninas douradas
na molície da areia,
ou quando uma sucessão
de aves imensas me precede,
em minha calada exploração
não sonha nem uiva nem troveja,
não se sussurra nem murmura:
por isso me quedei vivendo
na música do silêncio.

O ar está mudo, todavia
os automóveis resvalam
sobre algodões invisíveis
e as multidões políticas
com ademanes enluvados
transcorrem em um hemisfério
onde não voa uma mosca.

As mulheres mais tagarelas
afogaram-se nos tanques
ou navegam como cisnes,
como as núvens no céu,
e vão os trens do verão
repletos de frutas e bocas
sem um apito nem uma roda
que range, como ciclones
encadeados ao silêncio.

Os meses são como cortinas,
como taciturnas alfombras:
bailam aqui as estações
até que dorme no salão
a estátua imóvel do inverno.


Esse poema foi traduzido pela poeta Olga Savary e está no livro "O Coração Amarelo". A fotografia é de João Veríssimo.